domingo, 23 de março de 2008

Ar Pesado

Lia se distraía com a música do limpador de parabrisa rangendo contra as violentas gostas de chuva que se chocavam contra, enquanto o transito lentamente se desengarrafava. Não pensava em nada. Estacionar, como tantas outras coisas em sua vida, era um processo automático. Saboreava-se com a aleatoriedade das gotas, quebrando discretamente com a sequência burocrática cotidiana, gotas que timidamente faziam contraponto com o padrão ditado pelo limpador.
"Did I see a moment with you
In a half lit world
I'm frightened to believe
But I must try
If I stumble if I fall
I'm reaching out in this mourning air.."

E enquanto o celular proclama Mourning Air, todo o resto se cala. A chuva, o limpador, o trânsito. As buzinas. Seu coração. Lia observa atenta o celular, completamente sem reação. A música segue tocando, e a chuva começa a sair por seus olhos.
A chuva volta. O limpador. O trânsito e as buzinas. Por fim, seu coração, ainda que com um pulso desagradavel, pois o celular parara de tocar. Lia secava o rosto com o lenço do porta-luvas. Talvez tudo fosse parar novamente, mas não conseguiria reconhecer o perfume dele com todo aquele ar pesado monopolizando suas narinas.
Lia resolveu ligar.
Um. Dois. Três. Quatro toques. Ele não iria atender? Cinco toques. Teria ligado por engano? Seis.
"Alô." A voz grave, o sotaque acentuado.
"O-oi.." O que fazer? O que dizer? Era uma criança novamente. Presa em um momento imprescindível, dopada com o ar pesado, já vicioso em seu respirar, ar já respirado por alguns minutos naquele carro fechado.
"Eu tenho tanta saudade, Lia. Ver as ruas, os parques, as pessoas, tudo é tão difícil, todos tem o teu cheiro, tua face. Em minha memória, tudo lentamente se mistura, formando uma massa amorfa que não cansa em falar teu nome."
Respirou fundo. O ar pesado havia de lhe dar alguma sensação que a distraísse da chuva que insistia em tentar sair por seus olhos.
"Es-escuta.. Não adianta mais. Já acabou. O erro já foi feito. Não foi meu, talvez não tenha sido teu, mas tu não impediu que ele acontecesse. Me deixou cair do ninho sem saber voar, e agora que eu aprendi, não quero mais viver em um ninho sem asas, indefesa e arriscando cair novamente"
Começou a se sentir tonta. Seria a coragem para mentir tudo isso? Seria o ar pesado, como a fumaça de um cigarro, beijando seus alvéolos?
"Tá tudo tão difícil, Lia. Lucas pergunta todo dia pela mãe, e eu não consigo mais mentir. Aonde tu está? Achou alguém novo? Não é só... quer.. de.. ti"
Começava a não conseguir entender direito o que ele falava. Sua audição começava a não funcionar mais. Lia começava a se desprender de tudo. De seu carro. Seu emprego. Suas músicas. Seus gostos, prazeres e costumes. Sua casa, seus amigos. Por Deus, até de seu filha Lia se desprendia e abstraía. Mas ele não saía. Por algum infame neurônio teimoso, ele se mantinha nítido e constante em sua mente.
"Eu te amo. A verdade é que eu só soube voar quando estava contigo. Quando tu me deixou, eu desaprendi a voar. Comecei a cair e me segurei nos vícios mundanos, que como galhos apareceram no caminho. Desaprendi a ser uma mãe, e tive vergonha demais para conseguir ver Lucas. Fala pra ele que a mamãe sente muito. Eu te amo, e por favor, não te lembra de mim assim."

Ar pesado.
Janelas fechadas.



Escuro.


Ele.






Nada.

1 Blablablahs:

Bruno Hartmann disse...

Sinceramente, muito bom!