Cavalgava um belo corcel, vindo de terras distantes onde os cavalos recebiam tratamento de humanos. Vestia um traje roxo por cima de uma cota de malha, com o brasão de sua família estampado reluzente em seu peito. Um leão heráldico bem bordado. Seu cabelo era castanho e comprido, bem cortado e tratado. Sua face estava impecavelmente limpa, sem um pelo sequer aparecendo. Era alto, e isso lhe tornava imponente no cavalo. Tudo isso lhe dava uma aparência nobre e brava, mas sua cara era de preocupação. Galopava pela pradaria, como faria em qualquer dia que quisesse se sentir livre e selvagem, mas o fazia com um destino em mente, e se sentindo tudo, menos livre.
Estava, de fato, preso a um sentimento de medo que algo pudesse acontecer. Estava a par das invasões de tribos bárbaras que aconteciam ao norte de seu país, mas quando a notícia de que estaria sendo invadida aquela cidade tão estranha pra ele, onde passara tantos dias quentes, em companhia de vários desconhecidos, onde só conhecia uma pessoa, A pessoa. A razão de sua existência, e também a razão de sua aflição. Helena era, como qualquer poeta poderia descrever, a última melodia que soaria na noite, a brisa confortante nos primeiros dias de inverno, o cisne elegante iluminado pela lua em uma morna noite de verão, e enfim, a união harmoniosa das estações, como se elas fossem efêmeras, mas óbvias. Havia conhecido-a em uma viagem diplomática, em uma tarde bucólica e inocente. Inúmeras foram as tardes que passaram antes que o jovem cavaleiro tivesse que regressar. A promessa de um reencontro, no entanto, havia sido feita.
O reencontro aconteceu, e a distância fez com que os dois sentissem a dor da saudade. Pôde passar um mês com a jovem, a família dela havia gostado muito do jovem cavaleiro, e a próxima vez que a encontraria, seria para levá-la para morar com ele. Andava resolvendo negócios em seu condado, e então chegou a trágica notícia das invasões.
Adentrava um bosque, e sentia as rédeas se afrouxarem em suas mãos quando enxergou a fumaça negra que adiante se impregnava, em cima de onde deveria ser a cidade onde Helena morava. Seu corcel, que havia sido tratado como homem em terras distantes, não era capaz de entender o pânico tão humano que tomava conta de seu cavaleiro. Quando finalmente adentrou os portões derrubados da outrora tão linda e estranha cidade onde morava sua amada, agora de espada em punhos, galopava em direção a mansão que pertencia à família de Helena. Os pobres bárbaros que tiveram o infortúnio de estar em seu caminho, não tiveram sequer a chance de visualizar a cara maníaca de quem os decapitou sem cerimônias.
Sangue e fogo deturpavam as casas, gritos e choros de famílias inocentes. Não era hora para se preocupar com os outros. Entrou naquela mansão, e seu coração palpitava de pavor quando encontrou a porta já arrombada. Corpos. Empregados mortos, gavetas e móveis atirados, sangue tingindo as roupas atiradas no chão. Andando mais um pouco, achou o cadáver do pai de Helena, com uma espada perto de seu corpo, insinuando que morreu lutando, e o cavaleiro sentiu o seu estômago gelar. Era difícil acreditar que tudo aquilo era verdade, tudo parecia tão surreal. Subindo as escadas, ouviu gritos de Helena, e correu como nenhum outro homem correria. Ao entrar no quarto, viu três homens violentando a mãe de Helena, e sua amada encolhida em um canto, chorando e berrando, enquanto um brutamonte mais velho ria e se divertia
Neste instante, a mãe de Helena já desacordada, o jovem cavaleiro com seu coração em mão saiu em direção a sua amada, a frágil Helena desamparada. Helena olhou em seus olhos, com lágrimas e decepção. O rapaz notou que até então seu coração estivera hibernando, e agora, finalmente ele estava desesperado.
Com lágrimas escorrendo, Helena disse em tom baixo: “Desde que tudo isso começou, só o que eu queria é que tu estivesses aqui para me salvar de tudo. Só queria que isso acabasse, que tu acabasse com tudo isso. Agora, enfim, chegastes, e a culpa disso tudo certamente não és tua, meu cavaleiro, mas como eu gostaria que tu tivesse sido capaz de impedir isso.”
Desesperado, com o medo de perdê-la lhe corroendo por dentro, o jovem se aproximou e...
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Mateus acorda, seu quarto impregnado com a fragrância misturada de mijo e vômito. O vômito era seu, mas o mijo havia sido o gato displicente, como que demonstrando sarcasmo da situação em que ele estava. Levantou, e caminhou até o banheiro, sem se importar muito com o que fosse pisar no caminho. Enquanto mijava se olhou no espelho. Ainda era alto, os cabelos eram um pouco mais curtos, com a aparência oleosa de quem estava enforcando o banho há alguns dias. Sua barba rala, outrora bem feita e nobre, completava o seu visual junkie e de cavaleiro pós-moderno fracassado. Enquanto ainda organizava as idéias, caminhava lentamente até a cozinha, passo incerto e despreocupado, mãos tremendo um pouco, e olhos ofuscados pela luminosidade. Abriu um armário acima de sua cabeça, dedos desfilando na ponta de uma mão que quase não alcança a caixa, puxando com delicadeza a pequena caixa vermelha metálica, ornamentada com detalhes dourados típicos de caixas de música antigas.
Carregou a caixa até a poltrona, onde se sentou e a alinhou entre seus joelhos, como que prestes a abrir a caixa de Pandora. Abriu a caixa, lentamente com a ponta dos indicadores, um de cada lado. O clique precedeu a canção, que mecanicamente começou a soar. Dentro, a cartela de comprimidos que fazia os sonhos voltarem, mas desta vez, não se fez preciso. Mateus fechou os olhos, e seus cabelos eram longos e sedosos novamente. Sua barba era bem feita, e sua cara não tinha mais o ar junkie e as olheiras. Seu flat imundo e desprezível era agora uma enorme suíte medieval, e vinha lhe abraçar a sua amada Helena. Mateus a abraçou, dopado pela necessidade de acreditar, acabou entendendo que se permitia qualquer coisa para viver essa realidade lírica com quem já não tinha mais como viver na realidade. As drogas, como o seu corcel e sua armadura, era apenas um artifício para lhe levar perto de quem amava, mesmo que agora apenas no seu mundo.


12 Blablablahs:
realmente... ótimo!
meu favorito! muito bem escrito, achei muito boa a idéia!
Indeed, I guess we have a masterpiece here..
tu fala que ninguém lê, muitos lêem sim! =) adoro seus textos!
Bah, eu tava há um dois dias abrindo a tua página e criando coragem pra ler esses textos não-pequenos...hehe
E tu escreve muito bem cara, curti. Eu ia te matar se parasse DO NADA ali o conto "o jovem se aproximou e..." asd]a~sçdãsç
TRI (Y)
fiz um link aqui pro teu.
Bêj
Mto interessante, discutiremos, discutiremos. O que me chama mais atenção são as ligações e as referências, culpa do teu subconsciente? talvez, afinal, não é de graça que ela se chama HELENA, hehe.
E aqui eu tenho uma resposta pronta pra esse texto. Me dei conta disso agora de manhã, te ligo mais tarde.
http://writerlounge.blogspot.com/2007/11/bomboleguero.html
meu deus, morreu?!
nao posta mais, quero ler algo, posta alguma coisa pelo amor de deus! XD
ai como sou chata >.<
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