Cena 1 - Carro - Interior Dia (Nublado)
O limpador de parabrisa limpa a chuva no parabrisa, embassado no interior. Há uma bolsa no banco passageiro e um celular ao lado.
Lia está sentada em frente ao volante. Aparenta estar na casa dos 30 anos, veste roupas de inverno, mas informais. Sua face está suada, e há maquiagem nos olhos. O carro está ligado, apesar de estar estacionado. Ela olha pela janela embassada, e observa algumas silhuetas distantes. Sua expressão é de indiferença
Lia olha as horas, e a visão de seu relógio analógico de pulso desfoca. Lia abre o porta-luvas, pega um lenço e seca a testa com ele.
Lia seca a testa, coloca a mão sobre a chave, como quem cogita por um instante, mas logo desiste e tira a mão da chave.
O som se cala por completo e o celular começa a tocar Mourning Air. É possível ver na tela que quem liga se chama Fernando. Enquanto Lia pega o celular, se ouve junto com o toque a batida de seu coração apressado ecoando.
Escorrem lagrimas pelos olhos de Lia, e se percebe que sua testa ainda mais suada. O telefone para de tocar e volta a se ouvir o som do motor, e de pessoas ao fundo.
Lia abre o porta-luvas e pega uma cartela de remédios e toma um comprimido. Respira fundo, seleciona o número de Fernando no telefone. Hesita, por um momento, e então disca.
Ouve-se o telefone chamando: um toque, Lia não se move. Dois toques, lia continua parada. Três toques, lia suspira, e fecha os olhos. Quatro toques, Lia olha novamente pras pessoas, desfocadas pelo vidro.
FERNANDO
Oi, Lia.
LIA
Oi.
A imagem escurece, a partir do ponto de vista de Lia. Ouve-se junto com as vozes o batimento cardíaco de Lia, acelerado.
LIA
Escuta, Não adianta mais. Já acabou. Eu consegui me libertar
de tudo. Tinha de ser assim. "Es Muβ sein".
FERNANDO
Tá tudo tão difícil, Lia. O Lucas pergunta todo dia pela
mãe. Aonde tu tá? Tu arranjou alguém novo? Não é só o Lucas
que quer saber de ti.
A ligação começa a ficar ruidosa, começa-se a não entender o que Fernando está falando. Lia desliga o telefone, larga no banco ao seu lado e, tonta, procura na bolsa pela carteira. Lia abre a carteira, observa uma foto 3x4 de um bebê, a retira da carteira, solta no chão, e fica observando a 3x4 de um homem. O batimento de Lia vai ficando mais lento.
As coisas a volta de Lia começam a ficar turvas, e desfocadas, até que não se enxerga mais nada, além do borrão da fotografia.
O batimento para.
-
Considerações:
Bom, primeiro irei esclarecer a frase em alemão de Lia. O "Es muβ sein" é uma referência que Lia faz a uma referência que Thomas faz a Beethoven, no livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Significa "Tem de ser". A referência vem de um tom levemente cômico, pois remete a uma dívida que um certo senhor tinha com Beethoven, e este, sempre falido, quando foi cobrar ouviu o outro argumentar: "Es muβ sein?" (Tem de ser?) e ele responde: "Es muβ sein!" (Tem de ser!). Beethoven rascunhou isso, e compos uma pequena peça de quatro vozes em cima, aonde 3 dizem: "Es Muβ sein? ja, ja, ja" (Tem de ser? tem, tem, tem) e a quarta acrescenta: "heraus mit dem Beutel!" (puxa da bolsa !)
A segunda consideração a fazer é que esse roteiro literário é uma adaptação de um conto publicado no meu blog antigo, quem acompanha desde lá certamente já leu. A versão roteiro literário, por ter à disposição elementos audiovisuais, procura ser menos explícita, principalmente nos diálogos e tentar passar algumas sensações de Lia como experiências sensíveis (através de desfoques, sons,e etc...) O desfalecimento não tem como propósito aqui (e, na verdade, nem no conto original) ser algo explicado e detalhado. É muito mais um reflexo do que propriamente um desfecho.
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