segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Uma história que eu não soube terminar

Era final de tarde, e a cidade transpirava. Habituado a desviar de pessoas, Vitor volta pra casa em sua gasta bicicleta. Não era uma atitude com intenções ecológicas, mas um velho hábito que sobrevivia ao barulho e a fumaça da vida moderna. Vitor cruzava uma avenida, atravessava ruas, e ninguém o percebia. No fundo, ele também não percebia realmente os outros. Se há uma memória a se guardar de Vitor é que ele não percebia realmente os outros. Vitor pensava no trabalho pendente a se continuar em casa, na conta da internet que estava atrasada, na garrafa de vinho que ele tinha que comprar pra dar de presente de aniversário a um amigo, como ele fazia todos os anos, e pensava em dormir, e talvez sonhar. Nada disso, no entanto, aconteceu.

Vitor atravessava a rua distraído, quase na frente de sua casa. Alguém poético poderia dizer que vitor estava sonhando acordado, mas não seria verdade. Vitor não estava mais pensando em nada, nem na possibilidade que um sedã vermelho o atingiria a 54 km/h, não tendo businado porque o motorista falava no telefone com sua esposa, que lhe pedia pra trazer massa, tomates, e na imaginação dele, camisinhas. Não pôde se dizer que Vitor não sentiu dor, porque atropelamentos não são acidentes populares por causarem mortes limpas e rápidas. O carro bate, a bicicleta enverga, vitor rola por cima do capô, o vidro trinca, vitor rola em velocidade, o vidro se suja de sangue, Vitor cai no chão ensanguentado, com várias costelas quebradas, e possivelmente uma hemorragia interna, o vidro não se despedaça, permanece torto e trincado, lembrando uma teia de aranha, cheia de tramas.

O momento da vida: A hora de lembrar tudo, o flashback que precede a luz, pensa a mente entorpecida do futuro finado Vitor. Não teve uma vida mal sucedida ou violenta. O drama de Vitor nem sequer era um drama. Era uma ausência de momentos que o abalassem, momentos que o deixassem eufórico, uma vida sem autos e baixos, Vitor simplesmente não sentia nada. Sua mãe morrera cedo, Vitor chorou, sentiu o luto, e eventualmente passou. Vitor seguiu em frente e quase não se lembrava mais de quem o pariu 4 anos depois de sua morte. Seu pai entrava em depressão, herdara uma grande quantia de dinheiro, mas não sabia nem sequer o que fazer com tanto. Vitor o abraçava, mas Vitor não o fazia triste, não o fazia angustiado, Vitor fazia porque era necessário, porque não lhe custava nada, e apenas por isso. Vitor nunca rodou na escola, mas quando chegou perto de isso acontecer, não sentiu muito também. Estudou um pouco mais, não perdeu tanto por isso, afinal não é como se fosse se divertir horrores com aquele tempo “perdido”, e enfim passou. Sentiu um leve alívio, e apenas isso. Vitor passou de primeira no vestibular, foi na festa das tintas, se sujou, beijou uma colega, sorriu, esteve feliz, voltou pra casa bêbado, deitou e dormiu. Não sonhou, acordou com ressaca, tomou um remédio, e não sentiu mais nada.

Vitor passava por essas lembranças como quem virava páginas de um álbum de férias de um amigo, comentava mentalmente algumas, recordava de outras, mas não sentia nada digno de nota por tais lembranças.



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Bom, se você acabou de ler esse texto, e o relacionou com o título do post, provavelmente já entendeu o motivo de ela não ter um desfecho. A idéia desse post era tirar o dramalhão do anterior, e dar um fim pra história do Vitor, que eu escrevi em abril desse ano. Só que foi um texto que eu praticamente vomitei tudo na hora, e quando eu não consegui continuar, é porque eu já tinha "exorcisado" o que eu tava passando, e eu larguei o texto de lado. Por que que eu estou postando ele? Não tem muito sentido, mas eu gosto da história. Faltou mesmo foi eu descrever a única coisa que importava pro Vitor. Minhas honestas desculpas a ele.

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